O Princípio
Feminino
A emergência do feminino no nível do espírito.
Crescimento pessoal e
desenvolvimento humano talvez sejam dois dos mais populares estandartes que se
agitam na brisa do alvorecer do século 21. Então, o que há de novo? Não são
estas as duas velhas castanhas que a humanidade tem mastigado através da
história? Essas questões podem, de fato, ser as mesmas, mas a novidade é a
emergência de uma parte suprimida da dinâmica humana que pode ser chamada de
princípio feminino. Esse princípio não é uma crença preconceituosa na
superioridade ou inferioridade de um grupo comparado a outro. Nem procura
substituir o chauvinismo masculino pelo chauvinismo feminino. O seu objetivo é
permitir o florescimento de uma personalidade completa e equilibrada que é ao
mesmo tempo vigorosa e serena numa era de luz e poder.
O princípio feminino é uma energia
sutil, a qual tem permanecido desconhecida na psique de ambos, homens e
mulheres. Ela está imersa na essência de nossa identidade espiritual e é
distinguida por qualidades atribuídas ao lado mais gentil do ser humano – acolhimento,
respeito, confiança, paciência, lealdade, amor, honestidade, empatia e
misericórdia. Quando esse princípio é entendido e percebido, torna-se uma força
tão poderosa que nos desperta para novas realidades e nos realinha ao
verdadeiro propósito e significado da vida. Ambos, homens e mulheres, possuem
esse princípio feminino, mas ao longo da história frequentemente tem sido
igualado à emoção, fraqueza e vulnerabilidade. Contudo, no contexto de questões
sociais, econômicas e políticas, esse princípio é retirado da via principal do
desenvolvimento para uma estagnação e, então, rotulado como “questões
femininas”.
O princípio feminino foi, com isso, controlado e oprimido pela
mão-de-ferro do poder patriarcal, o qual quase invariavelmente demandou nada
menos que o sacrifício da intuição no altar da rígida lógica, a supressão da
gentileza em nome da força bruta, e a complacência das mulheres com o domínio
dos homens.
Se os problemas que têm surgido pela
repressão e controle desse princípio devem ser corrigidos de modo que ele
permaneça, então, isso deve ser feito através de uma mudança da consciência ao
invés de uma troca de posições, papéis: uma mudança de consciência que nasce de
uma base espiritual e não de uma base de sexualidade. O princípio feminino, esse
potencial sutil e desconhecido que está no centro do nosso ser, precisa agora
ser percebido para restabelecer um equilíbrio entre intelecto e intuição, fatos
e sentimentos, razão e realismo.
Na beira do novo milênio, no meio do
mais turbulento dos tempos, o princípio feminino é a primavera clara e serena
que pode dar vida ao árido deserto da humanidade; a água sagrada para se
extrair o propósito e o significado.
As Lições Vêm Do Passado
Olhando para trás, no século 20, alguém pode dizer que o progresso das mulheres
foi lento e laborioso, pois até os anos 60, as mulheres eram mais conhecidas
por seus papéis como esposas, mães, irmãs, enfermeiras e secretárias. Conforme
os movimentos de libertação das mulheres afirmavam que os direitos humanos
também pertenciam às mulheres, a comunidade internacional respondeu com uma
série de conferências de mulheres que contribuíram aos grandes progressos
feitos em colocar as questões femininas em destaque na agenda global. Ainda
assim, a maioria das mulheres que lideraram a reivindicação das posições que
elas mereciam no mundo fez isso às custas do princípio feminino, e ficaram ou
presas no jogo de poder da sexualidade ou alcançaram suas posições somente por
desenvolverem um controle de mão-de-ferro sobre os outros. Enquanto tais
medidas eram sem dúvida bem-sucedidas a grosso modo, qualquer mulher que tem de
comprometer-se sobre quem ela é, e conscientemente ou inconscientemente negando
a si mesma acesso à fonte de sua própria força, irá cedo ou tarde sucumbir à
armadilha de explorar, manipular e discriminar os outros – os muitos males que
ela procurava dissipar. Privada da força que vem de dentro, essas são as únicas
ferramentas disponíveis a uma pessoa vivendo fora das fronteiras do seu próprio
ser.
As mulheres do século 20 serão
lembradas como pioneiras de um caminho duro e perigoso para a liberdade e
liberação. Seus esforços trouxeram rupturas fenomenais e ensinaram lições
significativas. O ponto de partida foi orientado para a ação e influenciado por
características associadas ao hemisfério esquerdo do cérebro – coragem,
determinação, força de vontade e advocacia. O resultado foi a formação de uma
rede internacional de organizações femininas e grupos, cujos dedos estão no
pulso de mudanças políticas, sociais e econômicas, e quem sabe o quanto isso
impactou as vidas de mulheres por todo o mundo. Confrontadas com o paradoxo de
algum sucesso material e profissional, mas muito pouco preenchimento emocional
e espiritual, tais mulheres continuaram a sentir um certo esgotamento interior
e uma falta de autovalor e auto-estima. Reconhecendo que o avanço das mulheres
era uma tarefa árdua, um todo de muitas partes, tornou-se evidente que
progresso externo deveria ser nutrido por crescimento interno. Logo, programas
de autodesenvolvimento e crescimento pessoal começaram a espalhar-se
rapidamente. Conferências, seminários e fóruns foram substituídos por diálogos,
discussões e conversações. A lição significativa aprendida foi a paciência em
acreditar que o que quer que tenha acontecido foi parte de um processo que
levaria a um resultado bem-sucedido e à redescoberta de características tais
como intuição, criatividade, espiritualidade, nutrição, sustento, acolhimento,
amor e compaixão. Essa mudança na consciência tornou-se a espinha dorsal de
suas histórias.

A Visão Vem Da Antevisão
As mulheres do século 20 desenvolveram pautas e estabeleceram padrões para as
mulheres do século 21 perseguirem e continuar desenvolvendo. O princípio
feminino, que veio para ser visto como a luz no fim do túnel nos últimos anos
do século 20 se tornará um modo natural de ser no futuro. Confiança, respeito e
sabedoria estarão no coração da liderança autêntica de mulheres e homens;
integridade e altos padrões morais irão sustentar tudo isso. O poder não estará
mais nas mãos de outros que tomam decisões por nós, mas dentro do coração de
cada um de nós. Como líderes naturais, lideraremos a partir do centro de nossa
força interna e seguiremos nossos próprios princípios internos, consciência e
verdade, enfim, criando nossas próprias disciplinas.
O fato de que toda criança tem o
direito a participar integralmente em todas as áreas da sociedade e à igualdade
de oportunidade será uma parte integrante da consciência e atitudes de mulheres
responsáveis para o crescimento e desenvolvimento das crianças. Essas guardiãs
do futuro da humanidade vão assegurar que o valor de um indivíduo não seja
determinado pelo gênero e vão doar o amor e respeito com os quais o verdadeiro
“eu” de cada pessoa jovem possa florescer. Numa extensão maior, está nas mãos
das mulheres conduzir um processo que vai resgatar a nós e às gerações futuras
de sermos restringidos por atitudes discriminatórias, padrões abusivos de
comportamento físico e emocional, e das limitações que possivelmente temos
colocado em nós mesmos. Essa será a condição sine qua non de nossa liberdade
final.
A Sabedoria Vem Da Visão Interior
“Quem sou eu, sempre mantendo um olho no ‘eu’?”. Na confluência dos dois
milênios, uma das inseguranças mais desafiadoras a ser vencida é aquela sentida
pelas pessoas com relação a elas mesmas – a questão: Quem sou eu?
Ao usar o princípio feminino como a
premissa para explorar esse mistério, podemos embarcar em nossa jornada de
descoberta de uma perspectiva de fé em si. Somos freqüentemente relutantes em
olhar dentro de nós mesmos porque não temos a segurança de ficar face a face
com a pessoa que nós mais tememos – nosso verdadeiro “eu”.
O conhecimento espiritual dá um
nível mais profundo de entendimento que pode remover o medo do desconhecido e
abrir a porta para a visão interior. A visão interior dá clareza espiritual
para reconhecer o “eu” e a força interior para aceitá-lo, incluindo nossas
limitações atuais. A visão interior também serve como um holofote com o qual
podemos ver através das camadas de limitações que adquirimos por enfatizar os
aspectos temporários ou físicos de nossa identidade e com o qual podemos focar
na percepção de nossa identidade original e eterna – “Quem eu sempre sou”.
Identificar-me com o eu interior é o
método de libertar-me dos confinamentos e restrições das limitações físicas. Fé
em mim mesmo eleva e diviniza o meu intelecto e abre meu terceiro olho da
sabedoria. Esse é o tipo de fé que cria confiança e me dá coragem para aceitar
o passado, apreciar o presente e criar o futuro que eu quero. Essa é a
sabedoria que as mulheres devem incorporar. Essa sabedoria nasce da
profundidade de uma consciência espiritual e tem sido lembrada como shakti –
força de vontade recebida diretamente de Deus. Tal sabedoria, quando colocada
na ação, tem um efeito verdadeiramente transformador em nossas vidas e nas
vidas daqueles que estão à nossa volta, trazendo integração com integridade.
Usar o princípio feminino para
trazer essa integração com integridade é a ferramenta mais poderosa a nosso
dispor. Torna-se crucial a prática de retrair-se à identidade original e
lembrar “Quem eu sempre sou?”, conforme desempenhamos nossos diferentes papéis
e honramos nossas diversas responsabilidades. Isso nos posiciona em nosso
assento de auto-respeito. Quando nossas habilidades internas sutis são
integradas a todo nosso ser e podem ser expressas com o suporte do
auto-respeito, as ações são desempenhadas com um alto nível de integridade.
O princípio feminino tem sido
frequentemente confundido com feminilidade num nível físico, assim como
respeito à beleza interior tem freqüentemente dado lugar a uma obsessão com uma
beleza que não conhece nada além da profundidade da pele. O valor das mulheres
vem das qualidades originais e inatas da alma: verdade, amor, pureza, alegria,
e paz, e é desses valores que a beleza feminina é derivada e irradiada através
de suas feições. Acreditar na beleza do valor inato de alguém e ver o eu no
contexto dessa realidade eterna, ao invés de somente a aparência física
transitória, dá um impulso tremendo à auto-estima e autoconfiança de alguém.
Sentir é uma característica humana
básica, mesmo quando ela vem para expressar nossos sentimentos num
relacionamento particular, nossa paixão por uma tarefa ou admiração por uma
peça de arte ou música, frequentemente nós ou nos excedemos e perdemos nosso
senso crítico ou nos reprimimos com o medo de sermos rejeitados ou de sermos
emocionais demais. Algo em algum lugar deu errado com os sentimentos e,
portanto, precisamos entender profundamente o que realmente os sentimentos são.
Os sentimentos estão relacionados a motivos, intenções, desejos e expectativas,
e eu posso controlar o modo como me sinto quando estou em contato com isso. Sou
fortalecido quando meus sentimentos são baseados na força daquilo que é verdade
para mim e vem do respeito e confiança em mim mesmo. Sou enfraquecido quando
permito que influências externas criem dúvidas e medos ao modo como me sinto,
induzindo-me a olhar externamente para validar meus próprios sentimentos. Olhar
para fora de mim é uma maneira de permitir ondas de vitimização, incerteza e
insegurança, e então os sentimentos são freqüentemente reprimidos e nunca
encarados. Essa repressão dos sentimentos leva à depressão, dado que sou
incapaz de confiar em meus próprios sentimentos e fico relutante em falar sobre
eles, receando ser mal-entendido, criticado ou rejeitado. Permanecer perto da
minha própria verdade, valores inatos e força interior possibilita-me confiar
em meus sentimentos. Sou responsável pelo modo como me sinto e tenho a
capacidade para remover quaisquer sentimentos dolorosos e criar sentimentos
puros no lugar deles.
A capacidade de construir é a arte
de equilibrar sentimento com razão. Esse equilíbrio é especialmente necessário
em áreas como confiança, honestidade, lealdade e amor. A razão me diz que
quando começo a cultivar e nutrir quaisquer desses valores, minhas próprias
inseguranças, medos e dúvidas surgirão para testar a força do meu
comprometimento e aumentar minha capacidade. Cada teste tem um benefício imerso
nele. O que precisa ser entendido durante essas batalhas é que eu não devo
diminuir minha capacidade em confiar apenas porque alguém trai essa confiança,
ou minha capacidade em ser honesto apenas porque alguém mente para mim. É tão
fácil ser influenciado pelo comportamento de outra pessoa e internalizar suas
fraquezas de modo que me faça perder a fé em minha própria capacidade e oscilar
em estar alinhado com meus próprios valores. Isso é onde o espaço é requerido
para manter saúde e relacionamentos duradouros, e não tornar-se tão enrolado em
outro, de modo que eu perca toda a noção de quem eu sou. Esse recuo para manter
minha própria independência e integridade nutre meu crescimento e aumenta minha
capacidade de exercitar a liberdade de escolha ao invés de sucumbir ao puxão
das influências externas ou às expectativas dos outros.

Foi observado que a intuição
feminina guia a habilidade de tomar decisões das mulheres, quase como um sexto
sentido. Entretanto, intuição por si só não é suficiente para uma tomada de
decisão efetiva. Somente quando os motivos são claros e isentos de desejos
egoístas que a intuição pode dar sinais evidentes para ajudar a tomar decisões
objetivas. Essas habilidades sutis devem ser aplicadas ou expressas em relação
a fatos e não à fantasia ou imaginação. Andar sobre a corda bamba da vida
diária pode também desafiar nossa habilidade de tomar decisões com integridade.
Por isso é tão importante manter periodicamente um “olho” no “eu” para ver se
minhas ações, palavras, pensamentos e valores estão alinhados com meus
princípios. Se eles não estão, nós devemos usar nosso senso de autovalor para
nos permitir adiar a decisão e, se eles estão, então o alinhamento nos dá a
autoridade para nos posicionarmos, tomar a decisão e nos comprometer com ela.
Dentro do coração da alma humana, um
mundo novo está esperando para nascer. O presente que nós podemos, e devemos,
oferecer – a nós mesmos e a cada um – é reacender dentro de nós a chama do
princípio feminino e então manter essa chama brilhando forte e estável em
nossas almas, sustentando-a com o óleo de sentimentos puros, fé e determinação.
Um compromisso de viver por esse princípio é um compromisso para acender o
espírito do século 21 nos corações de toda a humanidade. Se eu não assumir esse
compromisso, quem o fará?
Por Gayatri Naraine
Biografia da autora: Gayatri Naraine é a representante da Brahma Kumaris nas Nações Unidas em Nova York. Este artigo (copyright 1998, por Gayatri Naraine) constou no “The Fabric of the Future – Women Visionaries Illuminate the Path to Tomorrow”, editado por M. J. Ryan, e publicado por Conari Press, Berkeley, Califórnia. Escrito há oito anos, o artigo ainda é, atualmente, indispensavelmente relevante.